
Você tratou, melhorou — e então a dor na relação sexual voltou. Isso não é fracasso. É o corpo comunicando algo que ainda precisa de atenção.
A mensagem que mais dói — e que mais aparece
“Dra. Cris, eu tratei. Melhorei muito. Conseguia ter relações sem dor. E agora voltou.”
Essa mensagem aparece. Com frequência maior do que se imagina. E carrega uma dor que vai além da física: a sensação de ter regredido, de ter perdido o que conquistou, de não saber se vai conseguir de novo.
Preciso que você ouça isso com clareza: a dor que voltou não é fracasso do tratamento. Não é fraqueza sua. E não significa que você voltou ao ponto zero.
Significa que o corpo está comunicando algo. E quando o corpo fala assim, a resposta certa é escutar — não se culpar.
Por que a dor pode voltar — os mecanismos
O vaginismo e a dispareunia têm uma característica que os distingue de muitas outras condições: eles envolvem o sistema nervoso. E o sistema nervoso, ao contrário de um osso fraturado que se consolida de uma vez, pode ser reativado por novos estímulos.
Entender os principais gatilhos de recidiva ajuda a identificar o que está acontecendo — e a traçar o caminho de volta com mais clareza.
1. Estresse e sobrecarga emocional
É o gatilho mais frequente. O sistema nervoso autônomo não distingue tipos de ameaça: pressão no trabalho, conflito no relacionamento, luto, esgotamento — todos elevam o estado de alerta. E quando o estado de alerta sobe, o assoalho pélvico tende a subir junto.
A mulher que passou meses treinando o músculo a relaxar pode, diante de um período de estresse intenso, perceber que a tensão voltou. Isso não apaga o que foi construído. É o sistema nervoso respondendo ao contexto.
2. Período de inatividade — suspensão dos exercícios em casa
O tratamento de fisioterapia pélvica inclui prática domiciliar: exercícios de propriocepção, respiração, uso de dilatadores. Quando esses exercícios são interrompidos por semanas ou meses, o sistema nervoso pode perder parte do condicionamento adquirido.
Não é uma questão de força de vontade — às vezes a vida simplesmente não dá espaço. Mas retomar os exercícios, mesmo que brevemente, tende a recuperar rapidamente o terreno perdido.
3. Novo gatilho físico ou emocional
Um parto, uma cirurgia ginecológica, uma infecção vaginal recorrente, uma experiência sexual não desejada — qualquer um desses eventos pode reativar o ciclo de dor-medo-contração, mesmo em uma mulher que já havia concluído o tratamento com sucesso.
Nesses casos, a recidiva é compreensível: o sistema nervoso registrou um novo evento ameaçador e voltou ao padrão de proteção que conhece. A boa notícia é que o caminho de volta costuma ser mais rápido do que o percurso inicial.
4. Mudança hormonal
Menstruação, gestação, amamentação, perimenopausa — essas fases alteram os níveis de estrogênio, que influencia diretamente a lubrificação, a elasticidade dos tecidos e a sensibilidade da mucosa vaginal. Uma fase de queda hormonal pode tornar a penetração mais desconfortável, reativando o ciclo de antecipação e contração.
5. Tensão no relacionamento
A dinâmica com o parceiro importa. Momentos de distância emocional, conflitos não resolvidos, pressão implícita ou explícita para ter relações — todos esses fatores afetam o estado de alerta do sistema nervoso durante o sexo. O músculo sente o que a mente carrega.
A recidiva não apaga o progresso. O sistema nervoso aprendeu o caminho do relaxamento — e o caminho de volta costuma ser mais curto do que o percurso original. Mas precisa de atenção.
O que fazer quando a dor volta
O primeiro passo é não entrar em pânico — e não forçar. Tentativas de penetração enquanto a tensão está alta reforçam o ciclo e dificultam a recuperação.
O segundo passo é retomar o contato com a fisioterapeuta pélvica que conduziu o tratamento. Não necessariamente para reiniciar tudo do zero — mas para avaliar o que está acontecendo, identificar o gatilho e ajustar o plano.
Em muitos casos, poucas sessões de retomada são suficientes para recuperar o que foi construído. O sistema nervoso tem memória — e a memória do relaxamento pode ser acessada novamente.
Quando o tratamento precisa de reforço
Em alguns casos, a recidiva é um sinal de que o tratamento inicial não chegou até a raiz do problema. Isso acontece especialmente quando há histórico de trauma emocional não processado, quando o parceiro não participou do processo, ou quando a ansiedade crônica nunca foi abordada de forma específica.
Nesses casos, o acompanhamento combinado — fisioterapia pélvica e psicoterapia — costuma ser o caminho mais eficaz para uma resolução mais duradoura.
Para quem está passando por isso agora
Se a dor voltou, você não regrediu. Você está em um corpo que aprendeu — e que pode aprender de novo. Com mais rapidez. Com mais recursos. E com a experiência de já ter chegado lá antes.
A dor que volta merece ser ouvida.
Não ignorada, não forçada, não silenciada.
Ouvida.
Dra. Cris Nobile
Fisioterapeuta Pélvica Especializada · CREFITO-3/157407-F
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